UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

25 de novembro de 2017

QUANDO É PRECISO SER HOMEM (SOLDIER BLUE) – O EXÉRCITO CRUEL


Oriundo da televisão, Ralph Nelson teve um promissor início de carreira em Hollywood com “Réquiem para um Lutador” e “Uma Voz nas Sombras”. Confirmou seu talento de diretor com “Duelo em Diablo Canyon” (Duel at Diablo) e “Os Dois Mundos de Charly”. Em 1970, no ápice da Guerra do Vietnã, impressionado com atrocidades cometidas pelas tropas norte-americanas, especialmente o massacre de Mi Lay, Nelson decidiu filmar o livro “Arrow in the Sun”, de autoria de Theodore V. Olsen. Autor especializado em histórias de faroeste (escreveu mais de 40), apenas dois livros de Olsen chegaram ao cinema: “A Noite da Emboscada” (The Stalking Moon), otimamente filmado por Robert Mulligan e “Arrow in the Sun” que se transformou em “Soldier Blue”. Ao contrário de “A Noite da Emboscada”, “Soldier Blue” que recebeu o absurdo título nacional de “Quando é Preciso Ser Homem”, resultou num western que em nada engrandece a filmografia de Ralph Nelson, por mais que suas intenções sejam edificantes. 
 À direitaTheodore Victor Olsen (acima),
John Gay e Ralph Nelson.


Candice Bergen
Fugindo para o inferno - Um destacamento de soldados acompanha um capitão tesoureiro do Exército (Dana Elcar) que conduz, além de um cofre com dinheiro, também a noiva de um tenente da Cavalaria. Ela é Cresta Marybelle Lee (Candice Bergen), que capturada pelos Cheyennes viveu dois anos como esposa do chefe Spotted Wolf (Jorge Rivero), conseguindo afinal fugir da tribo. Os Cheyennes liderados por Spotted Wolf atacam o destacamento e apenas Cresta e o soldado Honus Gant (Peter Strauss) escapam com vida. Iniciam então um longo percurso para alcançar o Fort Reunion distante 150 kms e acabam por se envolver amorosamente apesar da resistência do respeitoso soldado. Entre as dificuldades pelas quais os dois passam estão o encontro com o contrabandista de armas Isaac Q. Cumber (Donald Pleasence) que fere Honus com um tiro e ainda com índios Kiowas. Extenuados encontram um batalhão liderado pelo Coronel Iverson (John Anderson) que se prepara para atacar os Cheyennes. Cresta foge do acampamento militar e avisa Spotted Wolf do ataque iminente. O chefe Cheyenne tenta parlamentar com o Coronel Iverson mas este ordena o ataque à tribo dizimando-a por completo. Cresta assiste desolada ao massacre sem nada poder fazer por seus amigos Cheyennes.

Candice Bergen com Peter Strauss
Romance entre batalhas - Ao final de “Soldier Blue” um narrador lembra que, igualmente ao que se viu no filme que se passa no ano de 1877, em 1864 ocorreu o massacre de Sand Creek, no Colorado, onde os índios viviam pacificamente confinados que foram pelo Governo norte-americano. Os Cheyennes da história de Olsen também acreditavam no tratado de paz e Spotted Wolf ao tentar dialogar carrega, além de uma bandeira branca, a bandeira dos Estados Unidos que recebera quando foram obrigados a viver naquela reserva. A referência explícita à dizimação cometida em Sand Creek e ainda mais a alusão à Guerra do Vietnã confessada pelo diretor necessitariam de um bom enredo para transformar esse fato em longa-metragem. E entre dois momentos maiores de ação no início e final de “Soldier Blue” ocorre o romance entre o soldado com a mulher branca que fora amante do chefe Cheyenne.

Aurora Clavel
O mais selvagem dos filmes - A chamada nos cartazes diz que “Soldier Blue” é o mais selvagem dos filmes. O ataque ao destacamento no início não chega a impressionar pela violência, ao menos na versão lançada oficialmente nos cinemas com duração de 112 minutos. Sabe-se que o filme tinha 135 minutos na versão original que foi vetada pelos distribuidores e reduzida em 23 minutos, o que não é pouco, devido à selvageria exposta na tela. Ainda assim, na parte final quando há o ataque da Cavalaria ao acampamento Cheyenne, índias são curradas, cabeças são decepadas, membros mutilados e uma índia tem seus seios extirpados em repugnantes sequências. Se alguém imaginava que com Sam Peckinpah a violência no cinema havia chegado ao seu limite, assistindo a “Soldier Blue” verifica-se que muita crueldade ainda podia ser filmada. Mas o que sob a direção e edição de Sam Peckinpah virava quase sempre pura arte cinematográfica, neste filme de Ralph Nelson se torna repulsivo, estridente, desnecessário. O contraponto poderia ser o romance entre Cresta e o soldado Honus. Poderia...

Candice Bergen
A irresistível mulher branca - A escolha de bons intérpretes muitas vezes salva um filme enquanto a errada seleção de atores pode comprometer todo um trabalho, por mais que o diretor se esforce para deles extrair razoáveis atuações. Quando surgiu no cinema aos 20 anos, Candice Bergen (filha do ventríloquo Edgar Bergen), impressionou pela beleza e mesmo pela classe que possuía. Além disso revelou-se engajada politicamente sendo uma crítica ao envolvimento norte-americano no Vietnã. Cedo, no entanto, percebeu-se que como atriz os predicados artísticos de Candice não correspondiam a seus traços extraordinariamente perfeitos. Pois é Candice, com toda sua formosura, que passa neste filme por mulher que sofre percalços em sua vida e se torna oportunista, interessando-se pela própria sorte, o que a leva a fugir da tribo que a sequestrou dois anos antes. Claro que o jovem cacique Cheyenne logo a fez sua esposa pois como resistir aos encantos de Candice? O ‘Soldier Blue’ (Honus Gant) da história resistiu até onde pode, ele que na longa odisseia até o Forte Reunion pretendia entregar cresta ‘intocada’ ao seu noivo, o Tenente McNair (Bob Carraway). Na prolongada caminhada o casal tem, entre outras intimidades forçadas, que dormir sob o mesmo e único agasalho de Honus  resiste, até que sucumbe pois apesar de casto e devotado ao regimento é preciso ser homem, como diz o ridículo título nacional.

Candice Bergen com Peter Strauss
Contraponto à irracionalidade - Se Candice é atraente vestida, coberta apenas por um traje curto e mais nada no corpo ela se torna irresistível, menos para o zeloso ‘Soldier Blue’, como Cresta chama Honus. Ralph Nelson e o roteiro de John Gay optaram por mostrar tudo que fosse possível da bela Candice que só é substituída por um dublê de corpo numa sequência em que suas nádegas estariam à mostra. Nelson talvez tenha esquecido que a sugestão é sempre mais forte que a exposição, além de visivelmente querer dar a seu western um cunho fortemente erótico. Insistir no lirismo do idílio entre Cresta e Honus com a insipidez do par central seria mesmo perda de tempo e o romance que poderia ser o contraponto à irracionalidade da guerra não consegue emocionar. Mesmo fugindo do modo de vida dos Cheyennes Cresta admira os índios e faz tudo para salvá-los do iminente massacre. Honus só enxerga a bestialidade dos homens de túnica azul quando os vê em ação dizimando a tribo Cheyenne até que nenhum índio respire mais.

Donald Pleasence e John Anderson
“Por quê?” - Donald Pleasence é o contrabandista de armas Isaac Q. Cumber, que ri do próprio nome (‘Pepino’) enquanto municia os Cheyennes com rifles. O ator repete o tipo desvairado sem que consiga impressionar como em outros filmes. John Anderson com um chapéu típico do exército britânico em suas conquistas na Índia é uma réplica de George Armstrong Custer, tanto em sua excentricidade quanto na egolatria. A música de Roy Budd tenta diversos estilos, desde Elmer Bernstein até Ennio Morricone, não desprezando nem mesmo uma soprano a la Edda Dell’Orso, claro, sem o brilho dos imitados. A cantora canadense Buffy Sainte-Marie, conhecida por sua canções de protesto compôs a canção-título que, ao contrário de “Up Where You Belong”, também composição sua, fez enorme sucesso e recebeu o Oscar e Melhor Canção em 1982. O que não falta nas sequências de batalha são as características quedas de cavalos mas sem o know-how de um diretor de segunda unidade do calibre de um Cliff Lyons. As lutas são inconvincentes, assim como as mortes violentas durante a chacina comandada pelo Coronel Iverson. O fecho exato para este western são os patéticos gritos do soldado Honus ao final exclamando: “Por quê? Por quê?” indicando total falta de inspiração de roteiro e direção.


14 de outubro de 2017

PEQUENO GRANDE HOMEM (LITTLE BIG MAN) – DUSTIN HOFFMAN ONIPRESENTE NA DESMISTIFICAÇÃO DO VELHO OESTE



O primeiro western de Arthur Penn revisitou o mito Billy the Kid como o cinema nunca havia feito até então, mesmo resultando num filme desigual e que não chegou a agradar ao público. A curiosidade maior foi a abordagem inusitada da personalidade de William Bonney feita pelo escritor Gore Vidal. Depois do extraordinário sucesso de “Bonnie & Clyde” Arthur Penn conseguiu o incrível orçamento de 15 milhões de dólares para filmar uma história revisionista sobre os mitos do Velho Oeste. Para que se tenha uma ideia do significado desse valor, “O Poderoso Chefão” filmado dois anos depois custou ‘apenas’ seis milhões de dólares. A história de autoria de Thomas Berger foi entregue a Calder Willingham, roteirista que havia trabalhado com Stanley Kubrick e responsável pela versão final de “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks). Condensar o livro de Thomas Berger que contém longa lista de personagens em 140 minutos de filme não foi tarefa tão difícil, mesmo porque da longa existência de Jack Crabb (121 anos) o western de Arthur Penn se concentra em menos de duas décadas. Mais difícil foi não cair na armadilha de mesclar drama e comédia, o que ocorre quando Jack Crabb faz extensa narrativa a um historiador (William Hickey).
Nas fotos ao lado Thomas Berger (acima) e Arthur Penn


Dustin Hoffman com Faye Dunnaway,
Jeff Corey e Aimee Ecless
O incansável Jack Crabb - O menino Jack Crabb (Ray Dimas) e sua irmã Carolina (Carole Androsky) escapam de um ataque índio a uma caravana sendo resgatados por Cheyennes. Carolina foge do acampamento e Jack Crabb é criado como filho do cacique Old Lodge Skins (Chief Dan George), demonstrando bravura e por isso recebendo o nome nativo Little Big Man. Quando a tribo é atacada, Jack Crabb (Dustin Hoffman) já no final da adolescência é capturado por soldados e entregue aos cuidados do Reverendo Pendrake (Thayer David) que transfere a responsabilidade para sua jovem e volúvel esposa Louise (Faye Dunnaway). Crabb prossegue em suas andanças tornando-se companheiro do charlatão Merriweather (Martin Balsam) quando reencontra sua irmã Caroline que o ensina a atirar. Crabb conhece Wild Bill Hickok (Jeff Corey), de quem se torna amigo. Percebendo que nunca será como Wild Bill, Crabb tenta sem sucesso a vida de comerciante, agora casado com uma sueca de nome Olga (Kelly Jean Peters). Conhece então o General Custer (Richard Mulligan) que o aconselha a migrar para o Oeste mas no caminho a caravana é atacada por índios que sequestram Olga. Crabb reencontra Old Lodge Skins e os Cheyennes, voltando a viver com eles e se casando com a jovem índia Sunshine (Aimee Eccles) na reserva de Wishita River. A tranquilidade acaba quando a cavalaria desrespeita o tratado e massacra a tribo, matando também Sunshine. Mais uma vez Crabb escapa com vida, salvando também Old Lodge Skins, que fica cego. Junta-se então à cavalaria sob o comando do General Custer e participa da batalha de Little Big Horn, onde vê todo o Regimento da 7.ª Cavalaria ser dizimado. Crabb volta então para companhia de Old Lodge Skins, nada mais contando e encerrando a longa entrevista ocorrida em 1970.

Dustin Hoffman
Drama em tom de comédia - “O Pequeno Grande Homem” é um estudo do Velho Oeste, mais através de alguns de seus personagens principais que das batalhas entre índios e Cavalaria. Oscilando entre o tom dramático, por vezes trágico, e a comédia nada sutil, essa linha escolhida por Penn pouco contribui para a dimensão que se pretende dar à história. Quando se torna um rapaz e casualmente se reencontra com a ‘civilização branca’, Crabb conhece o Reverendo e sua infiel esposa que lhe mostram o caminho da pureza pregada pelo evangelho. O charlatão Merriweather ensina ao jovem aprendiz de charlatanice como conviver com o perigo que é enganar os incautos. Nada porém desvirtua tanto o filme quanto a caricatura de pistoleiro vestido de negro que é Jack Crabb adentrando um saloon e pedindo soda para espanto de Wild Bil Hickok que o apelida jocosamente de Sody Pop Kid.

Acima Martin Balsam, abaixo
Dustin Hoffman com Carole Androsky
Memória circular - Conflitam esses episódios pretensamente engraçados com a poética e triste visão do destino dos nativos fadados ao desaparecimento. Durante sua narrativa a memória do idoso Jack Crabb força improváveis reencontros e o filme passa a girar em círculos. Mais velho, Wild Bill Hickok é mostrado como um obsequioso pistoleiro que antes de morrer pede a Jack Crabb que leve dinheiro a uma prostituta de nome Lulu. Esta é nada menos que Louise Pendrake, a jovem mulher que iniciou Crabb nos pecados condenados pela Bíblia. Merriwether ressurge também com menos membros do corpo, perdidos pelas armas daqueles que são enganados pelo incorrigível vendedor de poções milagrosas. A própria irmã de Crabb, Caroline, se reencontra com ele, apenas diferente e masculinizada e, por fim, o pomposo General Custer que salva Crabb de ser executado para que sirva de conselheiro invertido na sua derradeira caminhada em direção à glória eterna e à cadeira de presidente dos Estados Unidos. Findo o delírio de Custer com as flechas em Little Big Horn, o desastrado Crabb volta a ser Little Big Man na convivência com os Cheyennes.

Dustin Hoffman e Faye Dunnaway

Chief Dan George
Vivendo entre os índios - Antecipando de certa forma o sentimentalismo que Kevin Costner imprimiu a seu “Dança com Lobos” 20 anos depois, este filme de Arthur Penn inovou em inúmeros aspectos, especialmente ao mostrar a vida numa tribo. Foram sondados para interpretar Old Lodge Skins os atores Marlon Brando, Laurence Olivier e Richard Boone. Ao final a produção optou pelo nativo canadense Chief Dan George numa escolha perfeita. Como o velho cacique Cheyenne Dan George dá ao personagem a necessária serenidade de quem acumulou sabedoria através da vida sofrida. Crabb havia desposado uma sueca num casamento infeliz e perdera a esposa sequestrada por índios, nunca mais a reencontrando. Como Little Big Man entre os Cheyennes Crabb se casa com a jovem Sunshine. As três irmãs desta após perderem os maridos em batalhas acabam dividindo Little Big Man entre ela enquanto Sunshine dá à luz ao filho que tiveram. Esse momento divertido com as índias extenuando fisicamente Little Big Man é o tipo de situação que flui na história sem parecer intrusivo. E há ainda Little Horse (Robert Little Star), Cheyenne que se torna ‘Himani’, homossexual, aceito normalmente pela tribo e que em dado momento tenta conquistar Little Big Man. A eterna hostilidade entre Little Big Man e Young Bear (Cal Bellini) mostra que rivalidades ocorrem também entre os irmãos índios. Essas sequências são pitorescas e agradáveis e formam um painel inusitado sobre os índios como nunca o cinema havia mostrado.

Dustin Hoffman com Steve Shemayne e com Robert Little Star (à direita)

Jeff Corey
O massacre de Wishita River - A Guerra do Vietnã estava em curso e cineastas alinhados com a contracultura e com o anti-stablishment, invariavelmente faziam menção ao conflito. “O Pequeno Grande Homem” não podia deixar de fazer referência à guerra e a sequência da morte de Sunshine evoca a foto da menina vietnamita correndo antes de ser alvejada. Penn filmou o massacre de Wishita River com os Cheyennes dizimados em meio à neve com o solo branco manchado pelo sangue índio e o furor dos homens de uniforme azul provocando destruição poucas vezes vista na tela com tamanho horror. O massacre de My Lai, ocorrido dois anos antes ainda permanecia vivo na lembrança de quem viu as imagens mostradas pelos jornais e noticiários, foi revivido magistralmente por Arthur Penn com a carnificina de Wishita River. Menos memorável foi o episódio de Little Big Horn com a demência do vaidoso General Custer e o extermínio de todo 7.º Regimento de Cavalaria.


Chief Dan George
Um índio autêntico - Dustin Hoffman é naturalmente engraçado e não tem dificuldade para tornar divertido seu personagem, mesmo quando a mão do diretor se mostra pesada demais para a comicidade. Chief Dan George numa interpretação muito justamente lembrada para o Oscar (perdeu para o exagerado John Mills de “A Filha de Ryan”) emociona a cada vez que ressurge na tela. Faye Dunnaway linda e docemente libidinosa dando o mais memorável banho do cinema em Jack Crabb. Muito boa a presença de Jeff Corey criando o mais convincente Wild Bill Hickok levado ao cinema e uma pena que em episódio tão curto, assim com o de Martin Balsam. Richard Mulligan é o empolado General Custer, certamente próximo do que foi o alienado militar tantas vezes mitificado pelo cinema.

Dustin Hoffman
Sucesso de público - Harry Stradling Jr. foi o responsável pela impecável fotografia e o músico de blues John Hammond compôs a excelente trilha sonora musical. Preocupado apenas com a funcionalidade dos acordes, diferentemente das trilhas que querem marcar por temas melodiosos. Ignorado para prêmios de melhor filme, foi lembrado em diversas premiações devido à brilhante atuação de Chief Dan George, o primeiro nativo a interpretar um papel de proeminência em um filme norte-americano. “O Pequeno Grande Homem” é um dos grandes westerns de uma fase em que o gênero começava a agonizar, tendo sido sucesso de público apesar de sua duração longa. Tornou-se um dos westerns de maior bilheteria, ainda que tivesse custado uma pequena fortuna, merecido sucesso para um western que pode não ser uma obra-prima mas que é assistido com prazer até mais de uma vez.



22 de agosto de 2017

PÔQUER DE SANGUE (5 CARD STUD) – OS ASES MARTIN E MITCHUM NUMA FRACA MÃO DE HATHAWAY


Henry Hathaway
Aos 70 anos de idade em 1968 Henry Hathaway não pensava em se aposentar e poucos poderiam acreditar que ele ainda fizesse dois ótimos westerns: “Bravura Indômita” (True Grit) em 1969 e “O Parceiro do Diabo” (Shoot Out”) em 1971. “Pôquer de Sangue” (5 Card Stud), que Hathaway realizou em 1968 parecia que poderia também resultar em um western classe A e para isso Robert Mitchum e Dean Martin foram contratados para liderar o elenco. Mitchum ficou em dúvida em aceitar ou não pois havia recebido convite para interpretar ‘Pike Bishop’ no novo faroeste de Sam Peckinpah, “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch). Entre trabalhar com um diretor novo com fama de difícil, Mitchum optou por trabalhar com o veterano Hathaway que também gostava de gritar com os atores e que o dirigira em “Feitiço Branco” (1953), sem que (o diretor) o desrespeitasse. E quem teria coragem para qualquer desaforo com Bob Mitchum sem levar o devido troco? Uma curiosidade dessa reunião era que tanto Mitchum quanto Martin desempenharam papéis de xerifes bêbados em westerns de Howard Hawks. E Mitchum interpretaria um personagem parecido com sua imortal criação do fanático pastor evangélico de “O Mensageiro do Diabo”. A produção de “Pôquer de Sangue” foi de Hal B. Wallis, mesmo produtor de “Cidade negra”, policial noir de 1950 com muitos pontos de semelhança com o novo faroeste de Hathaway.


Acima Jerry Gatlin sendo enforcado;
abaixo Dean Martin e Roddy McDowall
A mesa da morte - Numa mesa de pôquer na cidadezinha de Rincon um jogador esconde uma carta e como castigo é linchado por um grupo liderado por Nick Evers (Roddy McDowall). Van Morgan (Dean Martin), jogador profissional, tenta sem êxito salvar o infeliz da forca. Chega então ao lugar o Reverendo Jonathan Rudd (Robert Mitchum) e tem início uma série de execuções na cidade, coincidentemente todos os mortos estavam na fatídica rodada de pôquer. Aparentemente Nick Evers seria o responsável pelas mortes, forma de acobertar ter ele comandado o linchamento. Descobre-se, porém, que o pregador é irmão do jogador enforcado pelo grupo e se instalara em Rincon para executar a vingança. Tanto Nick Evers quanto Van Morgan estão na lista do Reverendo que já matou os demais participantes da mesa de pôquer. O Reverendo faz uso de uma arma escondida em sua Bíblia quando se confronta, primeiro com Evers, a quem mata e em seguida no duelo contra Van Morgan, momento final de sua vingança.

A mesa fatídica e Robert Mitchum

Roddy McDowall e Robert Mitchum
Cowboy bizarro - Até a primeira metade “Pôquer de Sangue” mantém o interesse do espectador na trama típica de filme de mistério policial. Perde, no entanto esse atrativo quando contrapõe os dois possíveis responsáveis pela série de assassinatos, o irascível jovem interpretado por Roddy McDowall e o sinistro reverendo. Enquanto Robert Mitchum revive o psicótico religioso de “O Mensageiro do Diabo”, McDowall lembra o perturbado Norman Bates de “Psicose”. Com forte sotaque britânico, McDowall é um dos mais bizarros cowboys já vistos em um western e, mesmo sem uma atuação vigorosa de Mitchum, fica claro que o reverendo é o tenebroso assassino da série de mortes. Torna-se então um western comum que se sustenta pela direção segura de Hathaway na condução de uma história mais que previsível. E pouco ajuda o roteiro com personagens femininas tantas vezes vistas em outros faroestes: uma bela jovem (Katherine Justice) disputando com a prostituta de bom coração (Ginger Stevens) o amor do herói. O triângulo não funciona não só porque forçado mas também pelas inexpressivas participações das atrizes e evidente desinteresse de Dean Martin por seu personagem. Mitchum até que se esforça um pouco mais.

Uma Bíblia perigosa
A Bíblia e o Colt - São justamente de Mitchum os melhores momentos de “Pôquer de Sangue”, especialmente a tensa sequência de luta contra o ator negro Yaphet Kotto. Mitchum é impressionante quando incute fúria a seus personagens como nessa sequência e, vencido pela força física do gigantesco Kotto (1,93m) faz uso a queima-roupa de seu revólver. Por sinal o reverendo lembra que não só a Bíblia expressa verdades, mas também seu Colt, “primeiro nome Samuel”, num inspirado trocadilho. O enfrentamento repetido duas vezes com a Bíblia aberta nas mãos em pleno cemitério é igualmente expressivo com a sagacidade do jogador-pistoleiro que percebe estar o livro de cabeça para baixo. Ao final “Pôquer de Sangue” deixa a impressão que as boas ideias do roteiro são desperdiçadas, assim como o talento dramático de Mitchum e o charme de Dean Martin.


Muitos atores característicos - Ruth Springford foi uma atriz que pouco atuou no cinema, dedicando-se quase que totalmente à TV, tendo bom desempenho, assim como Yaphet Kotto. Este em seu primeiro filme tentando seguir os passos de Sidney Poitier Uma pena Denver Pyle ser tão mal aproveitado só aparecendo no início e no final do filme, enquanto o ótimo Ted de Corsia, desta vez como xerife, atua menos tempo ainda. Entre os muitos nomes constantes em westerns aparecem Jerry Gatlin, Roy Jenson, Don Collier, Boyd ‘Red’ Morgan, Chuck Hayward (na foto ao lado de arma em punho) e John Anderson. Roddy McDowall foi uma escolha no mínimo esdrúxula.

Cartada inexpressiva - Dean Martin canta a canção-título “5 Card Stud”, de autoria de Ned Washington (letra) e Maurice Jarre, cuja melodia é trabalhada incidentalmente pelo maestro francês durante todo o filme. Rodado em locações em Durango, assim como a música de Jarre a cinematografia de Daniel L. Faap pouco impressiona. Nesta rodada de pôquer dirigida por Henry Hathaway o espectador mal consegue um par de ases porque os ases Martin e Mitchum jogam com pouca vontade.

26 de julho de 2017

O ANJO E O BANDIDO (ANGEL AND THE BADMAN) – JOHN WAYNE DOMADO PELO AMOR


Acima Gail Russell e Jams Edward Grant;
abaixo Herbert J. Yates, Gail Russell
e John Wayne durante as filmagens.
Em meados dos anos 40 John Wayne era o mais importante astro da pequena Republic Pictures e na renovação de contrato impôs algumas condições a Herbert J. Yates. O mesquinho chefão do estúdio não teve como recusar sob pena de perder o Duke e entre as condições do novo contrato estava ser ele, Wayne, o produtor executivo de seus próximos filmes. Isto bem antes do ator criar sua própria produtora que anos mais tarde seria batizada de ‘Batjac’. Em 1946 Wayne tomou conhecimento de uma história escrita por James Edward Grant e viu nela a possibilidade de um western idealista nos moldes daqueles que John Ford fazia nos tempos do cinema mudo. O próprio Grant se propôs a dirigir, ele que já havia escrito perto de duas dúzias de histórias ou roteiros para filmes. Apresentado o orçamento de quase um milhão de dólares, Yates logicamente não aprovou a extravagância o que levou Wayne a levantar pessoalmente o dinheiro necessário, ficando a Republic Pictures apenas com a distribuição do filme. Para o principal papel feminino foi lembrada a jovem atriz Gail Russell, contratada da Paramount que a cedeu por empréstimo. John Wayne queria fazer um filme de qualidade, acima dos padrões da Republic e não economizou chamando seus amigos Yakima Canutt e Archie Stout, o primeiro para dirigir as sequências de ação e Stout como cinegrafista. Harry Carey, ídolo de Wayne, teria também participação importante, numa espécie de homenagem. Algumas tomadas seriam feitas no Monument Valley, mas a maior parte das locações seria em Flagstaff e Sedona, ambas no Arizona.


John Wayne com Gail Russell
A conversão de um pistoleiro - Quirt Evans (John Wayne) é um temido pistoleiro de cujo lendário passado consta até ter sido delegado de Wyatt Earp e participado do confronto contra os Clantons.  Perseguido e ferido, Evans é acolhido por uma família Quaker, que cuida de sua recuperação. A jovem Quaker Penélope Worth (Gail Russell) se desvela nos cuidados ao estranho, se apaixona por ele e é correspondida no sentimento amoroso pelo pistoleiro. Aos poucos Evans assimila as doutrinas dos Quakers que pregam a não violência, mas o pistoleiro tem contas a acertar com Laredo Stevens (Bruce Cabot), o que o faz empunhar seu revólver diante dos assustados Penélope, seus pais e irmão menor. Evans percebe que chegara a hora de mudar de vida, ainda mais que o xerife Winston McClintock (Harry Carey) está sempre à sua procura atribuindo-lhe possíveis crimes que possam levá-lo à cadeia e à forca. Apesar dos esforços de Penélope, Evans se vê diante do confronto inevitável com Laredo e seu capanga Hondo (Louis Faust). Com Evans momentaneamente desarmado, é McClintock quem resolve a situação permitindo que o ex-pistoleiro fique livre para iniciar vida nova ao lado de Penélope.

Gail Russell; John Wayne e Paul Hurst
As boas intenções da história - John Wayne sem dúvida acreditou que a história de James Edward Grant resultasse num filme com a dose de sensibilidade comum aos filmes antigos pois se tratava da redenção de um fora-da-lei convertido ao bem pelo exemplo de religiosidade de uma família Quaker. Ao mesmo tempo a história teria ação suficiente para satisfazer aos fãs do gênero western e ainda um pouco de comédia bem ao estilo do que John Ford fazia. Só que James Edward Grant, que jamais havia dirigido um filme, não sabia como se aproximar (e quem sabia?) do tom que Ford imprimia a seus filmes. “O Anjo e o Bandido” resultou num faroeste que claramente ficou no meio do caminho em suas intenções. E não faltou a enorme contribuição de John Wayne que se despindo de sua maneira característica de atuar tem marcante interpretação como o pistoleiro que se deixa vencer pelo amor e que opta por fazer o bem se possível sem usar a violência tão comum e necessária no Velho Oeste. A melhor de todas as sequências deste filme e imagem perfeita do escopo da história é quando Quirt Evans convence o rancheiro Carson (Paul Hurst) a liberar a água que este maldosamente represara. Apenas pronunciando seu nome o pistoleiro atemoriza e convence Carson que em seguida faz uma visita aos Quakers de lá saindo feliz com duas cestas repletas de quitutes. As pessoas podem ser melhores praticando o bem é o que o anjo tenta mostrar ao bandido e a história de Grant aos espectadores, isto num western, gênero que é quase sempre sinônimo de movimento.

Irene Rich, Gail Russell e John Wayne;
abaixo Wayne e Gail Russell
Quakers e sermões – Enquanto os Quakers repetem asserções de duvidosa eficiência como ‘ninguém pode ferir você, a não ser você mesmo’ Quirt Evans participa de uma ruidosa luta destruindo o saloon local quando termina jogado para fora junto com seu amigo Randy McCall (Lee Dixon). O mesmo pistoleiro redimido susta uma ação de ladrões de gado sem disparar um tiro sequer, afugentando com seus dois amigos os bandidos que sentem a força de um longo e bem manuseado porrete de madeira. Pouco depois e como não poderia faltar num western da Republic, a pequena carroça com Evans e Penélope é perseguida pelos homens de Laredo, despencando despenhadeiro abaixo e caindo em um rio. Esses momentos típicos de um faroeste se contrapõem ao resto do filme onde não faltam citações bíblicas e exemplos de como a filosofia de vida dos membros da Sociedade Religiosa dos Amigos (Quakers) pode conduzir a vida dos homens mesmo numa terra onde impera a violência. E através do personagem Randy McCall há uma divulgação da Bíblia mostrada, antes de tudo, como um livro muito agradável de ser lido com histórias interessantes para serem ouvidas ao redor de uma fogueira. Sermões à parte há ainda o repetitivo alerta do xerife McClintock avisando Evans que a forca o espera. Aparentemente Harry Carey teve que decorar apenas essa fala que repete a cada vez que chega sorrateiro onde está Evans.

Edição atrapalhada - Um problema sério de “O Anjo e o Bandido” é sua edição. Sabe-se por fotos feitas durante as filmagens que sequências foram excluídas. Paul Fix consta entre os atores que participaram mas não adianta procurá-lo no filme que ele não é visto. E o editor deste western foi Harry Keller, homem de cinema que teve uma carreira curiosa pois começou como editor passando depois à direção, dirigindo quase 30 filmes. E não é que Keller retornou à sala de edição abandonando a carreira de diretor, voltando a editar filmes por mais 15 anos até quase sua morte... Em “O Anjo e o Bandido” pessoas aparecem e desaparecem como que por encanto, seja do lado do bando de Laredo Stevens, seja do lado de Quirt Evans. O número de capangas de Laredo aparentemente foi esquecido pela direção e um cowboy que cavalga com Evans some de cena sem ao menos dizer ‘goodbye’. Pior é o ferimento na cabeça do falastrão personagem interpretado por Olin Hollawd, ferimento provavelmente causado por alguém que não aguentava mais ouvi-lo contar suas bravatas, o que não é mostrado no filme. Como explicar então sua cabeça enfaixada? Esses pecadilhos – erros de continuidade e incoerência do roteiro – são comuns em westerns B mas positivamente não fica bem numa produção mais pretensiosa.

Paul Fix, John Wayne e Lee Dixon

John Wayne e Gail Russell
Amor verdadeiro na tela - Há um fato, porém, que torna “O Anjo e o Bandido” um filme imperdível: as atuações de John Wayne e Gail Russell. E não que tenham sido interpretações dignas de Oscar, ainda que o Duke esteja excelente prenunciando os grandes trabalhos que faria a seguir em filmes de John Ford e Howard Hawks. Wayne nunca foi um galã romântico, um amante irresistível, um conquistador impetuoso em seus filmes, mas como o bandido que encontra o anjo Quaker vemos um Duke enlevado, todo ternura diante da delicadeza de Gail Russell. E poucas vezes a recíproca foi tão verdadeira. Wayne se apaixonou por Gail Russell durante as filmagens e as sequências em que aparecem juntos são evocativas de uma singeleza incomum mesmo nos maiores clássicos do cinema romântico.

Harry Carey
Atores mal dirigidos - Harry Carey em seu antepenúltimo filme merecia uma participação mais consistente que o xerife inexpressivo que interpreta. Tom Powers, como o médico da roça, vai pelo caminho exageradamente discursivo e Olin Howland é excessivo e desagradável quando acredita ser engraçado. Bruce Cabot pouca oportunidade tem como vilão e os melhores do elenco de coadjuvantes são Paul Hurst e Irene Rich (a mãe de Penélope). Filmado em preto e branco perde-se muito da bela fotografia de Archie Stout, enquanto a música de Richard Hageman é estrondosa quando deveria expressar leveza. “O Anjo e o Bandido” é um dos muitos filmes que caiu em domínio público, tendo sido distribuído em DVD com títulos diferentes entre eles “O Anjo e o Malvado”. John Wayne ainda faria “O Rastro do Bruxa Vermelha” contracenando com Gail Russell antes da carreira da atriz entrar em franca decadência e antecipar seu trágico fim de vida. Nesse mesmo ano de 1948 John Wayne iniciaria a extraordinária sequência de grandes filmes que faria dele pelo próximo quarto de século o maior campeão de bilheterias da história do cinema.

Pôster original de "O Anjo e o Bandido"; John Wayne durante as filmagens.



10 de julho de 2017

A MORTE NÃO MANDA RECADO (THE BALLAD OF CABLE HOGUE) – SAM PECKINPAH CÔMICO E ROMÂNTICO


Sam Peckinpah
Quando tiveram início as filmagens de “A Morte Não Manda Recado”, em janeiro de 1969, Sam Peckinpah não havia ainda tido o reconhecimento da crítica por seu último filme, “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch). Esta obra-prima filmada em 1968 somente estreou em junho de 1969. Mesmo assim a Warner Bros. deu mostras de uma inesgotável paciência com o diretor que já havia estourado em muito o orçamento de seu filme anterior. Com cronograma de filmagens previsto para 36 dias e orçamento de 880 mil dólares, “A Morte Não Manda Recado” só foi finalizado em abril ao custo de três milhões e setecentos mil dólares, ou seja, quase três milhões a mais do que o inicialmente previsto. Além das intempéries criadas por Peckinpah, foram muitas as tempestades de areia que ocorreram nas locações no deserto mexicano e muitos os dias em que as filmagens foram suspensas o que elevou as despesas e também a conta na cantina em Sonora, onde Peckinpah e sua turma se encharcavam de vodka e tequila. Sam estava mais enlouquecido, desumano e autoritário que nunca, tendo despedido mais de 30 pessoas da produção aos quais humilhava antes de demitir. Até mesmo sua filha Sharon, incumbida de fazer um documentário sobre as filmagens, espécie de making-of, não suportou as atitudes do pai que sadicamente sacrificou cobras, coelhos e lagartos. O lagarto mostrado no início do filme foi morto com um tiro, o que definitivamente revoltou Sharon. Problemas na produção, estouro de orçamento e comportamento opressivo de Peckinpah ocorreram também em seu filme anterior que resultou num marco cinematográfico. O mesmo, no entanto, não aconteceu com “A Morte Não Manda Recado”.


Jason Robards; Stella Stevens;
L.Q. Jones e Strother Martin
O mais precioso bem do deserto - Peckinpah obtivera em 1967 os direitos de filmar a história “The Ballad of Cable Hogue”, de autoria de John Crawford e Edmund Penney. Pretendendo dar um tom de comicidade ao roteiro Sam inseriu muitas situações que, entendeu ele, tornariam o filme mais engraçado ao contar como o nômade Cable Hogue (Jason Robards) é abandonado no deserto por seu ex-parceiros Bowen (Strother Martin) e Taggart (L.Q. Jones). Sem cavalo, arma, comida e principalmente sem água, Hogue se vê diante da morte certa mas milagrosamente descobre um poço justamente no trajeto por onde passam diligências. Hogue registra a área em seu nome e torna o local uma parada obrigatória onde passa a vender o tão precioso líquido. Indo à cidade Hogue conhece Hildy (Stella Stevens), uma prostituta que perseguida pela população acaba se juntando ao próspero empreendedor. O pregador Joshua (David Warner) vive por um tempo também no posto de Hogue, mas tanto ele quanto Hildy não permanecem ali. Ela há tempos tencionava viver em São Francisco e Joshua devia seguir em busca de almas necessitadas de seu amparo espiritual, de preferência mulheres bonitas. Tempos depois uma diligência faz uma parada e entre os passageiros estão Bowen e Taggart. Este último acaba morto por Hogue que consuma parcialmente sua vingança, nomeando Bowen como novo administrador da parada, isto porque Cable Hogue decide abandonar o negócio. Essa decisão se deu em razão de Hogue perceber que novos veículos passam a trafegar pela estrada concorrendo com as diligências. São os automóveis e um deles atropela mortalmente Hogue que sucumbe ironicamente aos novos tempos.

Jason Robards
Mudança de estilo - O que levou Sam Peckinpah a se interessar pela história do miserável que se torna empreendedor foi a narrativa original tocar em seu tema preferido que é o fim dos tempos do tão decantado pelo cinema e literatura Velho Oeste. O crepúsculo da existência daqueles homens endurecidos pela forma de vida que levavam permeou “Parceiros da Morte” (The Deadly Companions), “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country) e “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch). A triste história de Cable Hogue seria mais uma possibilidade de Peckinpah discorrer alegoricamente sobre o assunto que tanto o atraia. Mas o diretor queria mostrar que era também capaz de fazer um filme engraçado, uma quase comédia com aspectos românticos sem deixar de lado o conflito de tempos em transformação. E a violência que era a marca de seus filmes foi amenizada, ainda que não totalmente eliminada, e sendo mostrada de forma mais pilhérica que dramática. Afinal Peckinpah vinha sendo chamado de ‘o John Ford dos tempos do Vietnã’, rótulo que lhe caiu admiravelmente após o violento e ao mesmo tempo poético “Meu Ódio Será Sua Herança”. Ford emocionava as plateias com os momentos românticos e engraçados de seus westerns e Peckinpah devia isso a seu público.

David Warner; Strother Martin
e L.Q. Jones
Pregador e bandidos divertidos - Os pregadores dos filmes de Peckinpah (quase sempre encarnados por R.G. Armstrong) eram irados fanáticos religiosos e em “A Morte Não Manda Recado” o pregador interpretado por David Warner é também fanático, mas não pelo que pregam os textos bíblicos e sim por mulheres. Podem ser até casadas, mas a condição essencial é serem bonitas e carentes de conforto espiritual que o libidinoso pastor de almas, com facilidade transforma em conforto licencioso através de versículos que ele mesmo cria. Não menos engraçada que o pregador é a dupla de escroques que atraiçoa Cable Hogue e mais tarde lhe cai em mãos para consumar a vingança, interpretados pelo pândego Strother Martin e pelo sempre psicótico L.Q. Jones. Nem o mais imaginativo roteirista do mais grotesco western spaghetti seria capaz de forjar a armadilha que Hogue prepara para ambos, no próprio buraco que escavaram em busca de dinheiro e no qual Hogue atira sua coleção de cobras. Completa a comicidade deste western a simbólica tragédia final com Hogue desesperadamente tentando conter o pesado automóvel que teve os freios soltos e que o atropela e mata.

Stella Stevens e Jason Robards
Interlúdio romântico - Se Peckinpah foi bem sucedido com os momentos engraçados da história de Cable Hogue, o mesmo não ocorreu com o romance entre o rato do deserto e a prostituta de coração de ouro. Jason Robards e Stella Stevens desempenham brilhan-temente seus personagens mas a história de amor entre ambos não funciona a contento. Assim como ocorreu em “Butch Cassidy e Sundance Kid”, filmado um ano antes e que será sempre lembrado pelo interlúdio romântico ao som de “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”, o idílio entre Hogue e Hildy é emoldurado por uma canção. “Butterfly Mornin’s” é cantada por Hildy e Hogue e nem de longe é palatável como o sucesso musical de Burt Bacharach e Hal David. Não faltou atrevimento a Peckinpah que mostra Stella Stevens inteiramente nua numa longa e deliciosa sequência de banho, para alegria dos espectadores, sequência que pouco acrescenta à aventura amorosa do casal. Muito melhor que o encantamento de Hogue e Hildy é o ciúme que toma conta dele quando o pregador volta seu olhar impúdico para a prostituta.

Stella Stevens e Jason Robards; Stella Stevens

Stella Stevens

David Warner e Jason Robards
Western arrastado e com pouca ação - “A Morte Não Manda Recado” tem duração de 121 minutos que parecem se alongar em alguns momentos tornando o filme um tanto arrastado. Mestre da ação, Peckinpah não cria nenhum momento mais trabalhado de confronto, mesmo porque o roteiro não foi pensado para esse tipo de filme. Em se tratando, porém, desse diretor este seu filme frustra as expectativas e nem toda comicidade e enlevo dos momentos entre Hildy-Hogue são suficientes para manter o ritmo ideal. Não faltam as belas paisagens que a câmara de Lucien Ballard captura primorosamente mas ressente-se da música de Jerry Fielding, compositor preferido de Peckinpah. As três canções ouvidas no filme são de autoria de Richard Gillis, duas delas musicadas por Jerry Goldsmith, que compôs a trilha incidental. Nenhuma das canções é inspirada o suficiente para tornar marcante “A Morte Não Manda Recado”.

Stella Stevens
Inesquecível Stella Stevens - Acusado muitas vezes de imitar Humphrey Bogart, a quem lembrava bastante fisionomicamente, tendo inclusive se casado com Lauren Bacall, a viúva de Bogey, Jason Robards é um magnífico ator que brilha como Cable Hogue. Faz esquecer o empostado ‘Cheyenne’ de “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West). Stella Stevens como Hildy tem o melhor desempenho de sua carreira não muito pródiga em boas oportunidades como esta que Peckinpah lhe deu. Delicadamente sensual e inocentemente divertida, Stella está inesquecível como a meretriz que conquista Hogue. David Warner passa, por vezes, do ponto exagerando como o pregador vigarista. Mas seu personagem é ótimo e seu discurso fúnebre memorável. O grupo de atores que formava uma espécie de Peckinpah Stock Company tem destaque maior para Strother Martin com seu olhar de covarde sempre pronto para dar um bote traiçoeiro. L.Q. Jones, Slim Pickens, R.G. Armstrong e Gene Evans completam esse time especial de coadjuvantes. Último filme de Peter Whitney que viria a falecer em 1972, aos 55 anos de idade.

Jason Robards
Lançamento de segunda categoria - Não poucos críticos consideram “A Morte Não Manda Recado” o melhor filme de Sam Peckinpah, o que é um exagero. E assim também não pensaram os executivos da Warner Bros. que relegaram este western a uma distribuição em cinemas de segunda categoria e com insignificante publicidade. Diante de seus melhores filmes, ambos faroestes – “Pistoleiros do Entardecer” e “Meu Ódio Será Sua Herança” – este “A Morte Não Manda Recado” é um filme menor e Peckinpah não tencionava repetir a grandeza de seu western anterior mesmo porque sabia que o material que tinha em mãos não tinha a mesma magnitude. Com a balada de Cable Hogue Sam Peckinpah fez aquilo que mais gostava de fazer, falar do fim do Oeste mítico. Pena que com um filme que não se tornou lendário como o Velho Oeste.


David Warner, Slim Pickens, Jason Robards, Peter Whitney e R.G. Armstrong;Stella Stevens e Jason Robards